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Acordo Mercosul–União Europeia: possíveis impactos e pontos de atenção para o Aftermarket automotivo brasileiro

Por: Luiz Sergio Alvarenga

Após mais de duas décadas de negociações, o Mercosul e a União Europeia assinaram, em 17 de janeiro de 2026, o Acordo de Parceria Estratégica Mercosul–União Europeia. Trata-se de um dos mais relevantes movimentos de abertura comercial já realizados pelo Brasil, com potencial de gerar impactos significativos sobre a estrutura produtiva nacional — especialmente para a indústria de autopeças e, de forma indireta, para o mercado de reposição automotivo (Aftermarket).

O acordo inaugura uma nova fase de inserção internacional do país, ampliando o acesso a mercados, estimulando investimentos e promovendo maior integração às cadeias globais de valor.

No entanto, seus efeitos tendem a ser heterogêneos: ao mesmo tempo em que cria oportunidades, também impõe desafios relevantes em termos de competitividade, produtividade e adaptação tecnológica para empresas instaladas no Brasil.

Próximos passos e implementação

O acordo é composto por dois instrumentos principais:

  • Acordo de Comércio Provisório (com foco no pilar comercial)
  • Acordo de Parceria (que inclui, além do comércio, dimensões política e de cooperação)

Para sua entrada em vigor, ainda são necessários:

  • Internalização: aprovação pelos parlamentos nacionais (no Brasil, pelo Congresso Nacional; na Europa, pelo Parlamento Europeu no caso do pilar comercial);
  • Ratificação: confirmação formal dos países signatários;
  • Entrada em vigor: após notificação oficial, com possibilidade de vigência bilateral antecipada.

Impactos no setor de autopeças e possíveis reflexos no Aftermarket

Embora o setor de autopeças seja considerado sensível — com prazos de até 15 anos para a liberalização completa e previsão de mecanismos de salvaguarda — o acordo estabelece a redução progressiva e, em alguns casos, a eliminação das tarifas de importação. Essa mudança tende a alterar, de forma gradual, a dinâmica competitiva do setor.

Nesse contexto, alguns pontos merecem atenção:

1. Reconfiguração da cadeia de fornecimento
A redução de tarifas pode incentivar empresas a revisarem suas estratégias de sourcing global. Montadoras com cadeias internacionais já estruturadas poderão ampliar o uso de fornecedores externos, o que pode aumentar a concorrência para fabricantes locais.

2. Relação entre canal original e Aftermarket
Existe a possibilidade de fortalecimento do canal original (OEM), especialmente se houver maior integração entre fabricantes globais e suas redes autorizadas. No entanto, o impacto efetivo sobre oficinas independentes, distribuidores e seguradoras dependerá de fatores como política comercial das montadoras, acesso a peças e regulação de mercado.

3. Acesso à informação e tecnologia
Um ponto sensível já presente no mercado brasileiro diz respeito ao acesso a informações técnicas e sistemas de conectividade veicular. Caso não haja avanços regulatórios ou acordos que garantam maior equilíbrio, esse fator pode continuar influenciando a competitividade do Aftermarket independente.

4. Investimentos e assimetrias competitivas
O acordo pode estimular a entrada de investimentos europeus e acelerar a modernização tecnológica. Por outro lado, empresas globais já consolidadas partem de uma posição competitiva mais avançada, o que pode ampliar a pressão sobre empresas nacionais, especialmente as de menor porte.

5. Ambiente de negócios doméstico
Os efeitos do acordo também serão condicionados a fatores internos, como carga tributária, custo de capital, eficiência logística e produtividade. Esses elementos continuarão sendo determinantes para a capacidade de resposta da indústria brasileira.

Considerações finais

O Acordo Mercosul–União Europeia representa uma mudança estrutural no ambiente competitivo, com reflexos que tendem a se estender por toda a cadeia automotiva, incluindo o Aftermarket.

Mais do que uma ameaça imediata, o cenário aponta para um processo gradual de transformação, no qual empresas precisarão se adaptar a um ambiente mais aberto e competitivo. Nesse contexto, ganha relevância a adoção de estratégias voltadas à eficiência operacional, inovação, qualificação técnica e posicionamento de mercado.

A atenção a esses fatores será fundamental para que os diferentes elos do Aftermarket automotivo brasileiro consigam não apenas mitigar riscos, mas também identificar oportunidades dentro do novo contexto de integração internacional.

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